Crônica: Brincando de ser rica

Eu sou transgênera financeira:
tenho mente de rica e conta bancária de pobre

Eu sempre digo que nasci para ser milionária. Digo isso porque preencho todos os pré-requisitos necessários. Sei disso. Nem todo mundo tem essa vocação. É como preencher uma vaga de emprego: a pessoa tem que ter um perfil exato para assumir determinado cargo. Para ter dinheiro é igual. De quê adianta ter milhões na conta bancária e não apreciar as coisas boas da vida? É um desperdício.
Eu tenho cara de rica, gosto de rica. Não tô falando de morar bem, ter conforto e saúde. Isso todo mundo quer. Tô falando de gostar de viajar de jatinho particular, de passear de iate, de beber só Veuve Clicquot e de comer lagosta. Daí sim a pessoa agrega valor ao camarote. Eu gosto. Na minha imaginação, pelo menos, eu adooooro. Só na imaginação também, né,? Porque na vida real é ônibus, metrô, feijão, arroz e, de vez em quando, uma cidra. Benza a Deus! A pobreza gosta de mim. Eu digo para ela me largar, mas ela não me ouve. Só pode ser carma.
Daí Deus me dá bom gosto, mas porém esquece de me dar condição. Mas eu me pago de rica de vez em quando. Um cabelo bem escovado, uma “roupitcha” bem alinhada e um saltinho têm o seu valor. Dia desses eu tava assim, “montada”, me sentindo. Parei numa cafeteria onde eu teria uma reunião  e, enquanto aguardava, iria pedir um cafézinho. Olhando o cardápido, descobri que eles tinham o Jacu Coffee. Um, um dos cafés mais caros do mundo. Adivinha? Pedi esse.
Tem toda uma cerimônia para servir este café: o garçon, cheio de pompa e circunstância, coloca o filtro com o pó direto na xícara e passa na hora, na mesa, na sua frente. Feito isso, provei o tal café. Bom, saboroso, e tudo, mas não achei lá essas coisas. Perguntei pra ele porque esse café é assim, tão especial. Veja você, que o que encarece o produto é a forma exótica como é produzido: os grãos de café são ingeridos por uma ave, que se chama Jacu, e são “colhidos” em seu excremento,. Depois, são torrados, moídos e, por fim, consumidos por nós, por mim. Ou seja, o glamour está no fato de alguém ter que mexer na merda para catar os grãos. O café vem da merda, literalmente! Depois dessa, eu acho que nem todo o luxo é bem-vindo. Me poupe!

Da série #CrônicasAntigas
Relembrando!

 

 

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