Crônica: Um título de loira-burra, por favor

07/05/2014 – Fazer compras para casa sempre foi um desafio para mim. Não entendo nada de produtos de limpeza: nunca sei qual comprar e para que servem direito; acabo levando os das embalagens mais bonitas. Na hora de escolher os alimentos, escolho o que são mais fáceis de preparar. Sou a rainha do miojo com molho pronto. Minha praticidade também vale na sessão de hortifrutigranjeiros: vou direto nas verduras e legumes já lavados, cortados e prontos para o consumo. Sempre levo sucos concentrados, portanto não tenho o hábito de comprar frutas para prepará-los em casa. Dá muito trabalho.
Mas, dia desses, resolvi levar laranjas: queria aquele suquinho de verdade. Coisa inédita. Lá estava eu me preparando para fazer o ritual de seleção das frutas. Porque escolher qual “coisa redonda” vai entrar no saco é como conferir uma congratulação ao alimento. Antes de ser “o escolhido”, já houve vários apalpados e rejeitados. Aqueles saquinhos transparentes são o podium do reino vegetal: é como dar a taça de primeiro lugar à fruta.
O problema é que me dei conta de que existe mais de um tipo de laranja. Sério, fico impressionada com a destreza dessa galera que enche o carrinho com todo tipo de fruta, verdura e legume que existe. Sabem exatamente o que comprar e para que serve cada item. No meu universo de congelados e tele-entregas, me sinto a analfabeta dos hortifrutis. E, sem saber qual das 375 laranjas diferentes serviam para suco, resolvi pedir ajuda aos “universitários”.
Tinha uma fila gigante na balança, as pessoas apressadas e mal-humoradas batendo os pés no chão. Enquanto isso, o atendente colava as etiquetas nos saquinhos com a habilidade de um mecânico da Fórmula 1. Já viu a velocidade com que eles trocam os pneus? Então para não ser linchada pela galera da fila, já que iria atrapalhar a ligeireza do moço, perguntei de longe, com a fruta na mão, que tipo de laranja era aquela. Depois de olhar por dez segundos para a minha mão e voltar rapidamente à sua atividade, ele respondeu: “pêra”.
Pensei: Pêra? Como assim? Eu peguei uma pêra no lugar de uma laranja. Dá zero para ela! Voltei à gôndola para devolver a fruta, numa frustação tão grande a ponto de me fazer desistir daquele desafio. Quando retornei, havia um homem colocando muitas “pêras” em seu saquinho. Bem ao seu lado, larguei minha pole position, mas, não contente, peguei-a de volta e disse, em voz alta: “Mas parece laranja”. O homem, que enchia seu saquinho, falou sem parar o que estava fazendo e sem imaginar a importância da revelação bombástica que ia fazer: “Sim, é laranja-pêra”.
Meu Deus! Silêncio. Silêncio seguido de cara de “ah ta” com queixo caído. Dê zero para ela e expulse-a da escola. Então aquela fruta sempre foi uma laranja nesse tempo todo! Então, se tem uma laranja que se chama pêra, deve ter também “mamão-morango”, “pepino-cenoura”, “melão-maçã”. Que mundo complicado. Escolher a embalagem mais bonita de suco concentrado é menos ridículo, no meu caso.

Da série #CrônicasAntigas
Relembrando!

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