Crônica: Não faça o que eu faço

junho/2014 – A impressão que eu tenho, quando se sai do avião, em primeiro lugar, é que você está guiando todas aquelas duzentas pessoas que te seguem vindo atrás de ti, como Moisés foi seguido no deserto. Pois bem, depois de muitos transtornos num dia de aeroporto fechado por conta da neblina, acabei sendo “encaixada” em uma aeronave lotada, num voo que não era o meu. Resultado: fui a última a entrar e me restou a primeira poltrona; e quem entra por último, sai primeiro.

Desembarque liberado, e lá vou eu, andando rapidinho, apertada para ir ao banheiro, com a bexiga estourando. Negligencio banheiro de avião.  Atrás de mim, vinha aquele bando de passageiros, pareciam pessoas perdidas seguindo meus passos. Finger, corredores, escada rolante e, finalmente, saguão de bagagens; e lá estavam os sanitários, abençoados sanitários.

Eu já estava em estágio delirante e enxergava aquelas portas imaginando luzes reluzentes, como um altar iluminado para a entrada do paraíso. A plaquinha na parede tinha o letreiro “sanitários” escrito em cima dos bonequinhos de “homenzinho” e de “mulherzinha” identificando os gêneros. Lá fui eu adentrando esbaforida a primeira porta, sem prestar atenção na plaquinha que identificava aquela entrada. Partindo do pressuposto de que, por educação, as damas são as primeiras a serem servidas, a primeira porta, certamente, seria a das mulheres. Bastou dar dois passos adentrando o banheiro que dei de cara com uma fileira de mictórios. Ops! Dei meia volta mais depressa que voo de beija-flor.

Lembram-se dos seguidores de Moisés? Pois é, eu não era a única desesperada para fazer xixi: atrás de mim vinham dois homens que também não prestaram atenção na identificação das portas. Eu inspiro muita confiança, e era responsável por todas aquelas pessoas. Logo, eles julgaram que a próxima porta seria a deles, afinal, “Moisés” entrou na primeira porta. Caraca! O que eu fiz? Fui correndo atrás dos dois e alcancei um deles. Puxei-o pelo braço, na porta do banheiro feminino, e consegui avisá-lo a tempo do engano. Visivelmente aliviado, ele retrocedeu e seguiu pelo caminho certo, mas o segundo eu não consegui salvar. Iludido, seguiu inocentemente, se fechando no primeiro sanitário disponível.

Agora não me restava nada além de ocupar o sanitário ao lado e aliviar a minha bexiga. Era uma questão de vida ou morte,  ela poderia explodir dentro de mim, e aquela alma já estava perdida mesmo. Enquanto eu estava lá, ouvi duas mulheres tagarelas entrando no banheiro. Ouvi, também, o perdido homem, que, nessa hora, deve ter ficado confuso saindo do sanitário. O silêncio das mulheres que, até então, falavam animadamente, permitiu que eu escutasse a torneira e o bater da porta. Saí e fui lavar as mãos, ouvindo a indignação das duas: “que abusado”, “cara-de-pau”, e outros xingamentos. Fiquei bem quietinha e saí de fininho. Não queria revelar que a culpa da confusão “banheiril” foi causada por mim. Se bem que, na condição de Moisés, eu poderia perder alguns soldados. Afinal, depois da passagem do povo judeu, a galera que vinha atrás se ferrou: centenas de soldados foram perdidos; eu perdi só um.

Da série #CrônicasAntigas
Relembrando!

4 respostas para “Crônica: Não faça o que eu faço”

  1. O texto em sim em certo momento chega a ser engraçado e em outro momento é muito bem formalizado. Na minha opinião somente quando passamos por uma situação como essa é que podemos mensurar o grau de desespero que pra uma coisa tão simples se torna questão de vida e morte. Em situações assim complicado aguardar das pessoas atitude de elegância e respeito. É salve-se quem puder !!!!

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