Crônica – O “fiscalizador” de bumbuns

20/08/2014 – Faz pouco tempo que perdi o meu avô. Ele nos deu o privilégio de viver entre nós por 90 anos. Parece muito, mas é pouco, muito pouco para mim. Não queria que ele fosse embora, não ainda. Sei que esse é o ciclo, e acredito que a morte seja uma ilusão, pois os meus “dogmas” me fazem crer numa vida eterna, onde todos nós nos reencontraremos um dia, num outro plano. Mas essa certeza é incoerentemente incerta, sem garantias; mesmo que houvesse garantias, nós, que ficamos neste plano, não sabemos se este reencontro acontecerá daqui a um dia, um ano, ou um século, e é ai que o desespero toma conta da gente, pois, neste mar de dúvidas, fica uma única certeza: a de que a saudade vai lhe fazer sangrar a alma; e isso dói, dói muito.

Entretanto, decidi não ficar “choramingando” a ausência do homem mais bem-humorado que conheci. Tenho lembranças hilárias do “vô Boy”. Aos 90 anos, mesmo parcialmente paralisado, ele continuava apostando a sorte, semanalmente, na loteria. Vivia fazendo planos do que faria com o dinheiro: “vou comprar um carro e uma ‘fatiota’; vou contratar um ‘chofero’, que vai me levar numa reunião; vou sentar na ponta da mesa, e vai ter um monte de “homi” engravatado; vou mandar em todo mundo”. Suas divagações, sobre o que faria com os “tão sonhados” milhões, não paravam por aí: viagens mirabolantes e uma casa bem no “miolo” da cidade figuravam na lista de agitos do “véio” bem disposto.

Porém, nada se comparava às nossas engraçadíssimas idas à praia. Ele tinha uma cadeira giratória, dessas de escritório, e era ela que o acompanhava em suas aventuras à beira-mar. Embaixo do guarda sol, senhor de si, em sua cadeira de rodinhas afundada na areia, ele rodava de um lado para outro, como um radar em busca de bumbuns bonitos. Sim, bumbuns! Exímio admirador da beleza feminina, ele se camuflava atrás de um óculos escuros e explicava que, assim, poderia olhar para todos os lados sem mexer a cabeça e sem ser flagrado pela esposa.

A cadeira giratória e os óculos escuros não eram suas únicas ferramentas para contemplar “belezuras”: um par de binóculos nunca faltava nas suas idas à praia. Ele mirava o olhar, ampliado por aquelas super lentes, bem no bumbum de mulheres a um metro de distância. Sim, a um metro, beeeeem pertinho dele. Quando a gente chamava a sua atenção, questionando o que estava fazendo, ele rapidamente redirecionava a sua “mira” para o mar, e explicava que estava olhando os barcos. Jura né? Figura!

Tenho certeza de que o céu agora está em festa, e que ele deve estar de olho nas “anjas”, mas do seu jeito beeeeem discreto (hahaha #SQN), para que a minha avó não perceba nada. Vai lá, vô Boy, agita a turma aí em cima!

Da série #CrônicasAntigas
Relembrando!

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